A atitude “Color blind”: um desafio!

Atualizado: 27 de mai.

Por: Silvia Silva


Você sabe o que significa a expressão “color blind”?


Talvez você nunca a tenha ouvido mas, provavelmente, já presenciou situações em que a ideia “color blind” estava na base...


É muito recorrente em espaços de debate sobre as relações raciais que pessoas muito bem-intencionadas se manifestem dizendo que “não enxergam a cor das pessoas”. Que para elas não há quem seja negro, branco ou qualquer outro matiz que reivindique pertencimento a grupos raciais específicos.


De todas as vezes que ouvi essa argumentação, consegui identificar ali um desejo de que as pessoas sejam vistas e tratadas pela forma como elas se expressam no mundo e não pela cor de sua pele ou qualquer outro atributo biológico (fenotípico).


Um desejo legítimo mas, ao mesmo tempo, com resultados extremamente danosos!


Entretanto, essa dimensão do dano, do potencial devastador desse pensamento e de suas consequentes ações, na maioria das vezes, não é cogitada por quem acredita nesse argumento.


Essa forma de concepção da nossa sociabilidade tem nome: “color blind” ou daltonismo racial.


O daltonismo, na perspectiva médica, é um distúrbio da visão que interfere na percepção de cores. Em alguns casos, impede a identificação de todas elas.


O grande problema do daltonismo na perspectiva sócio racial é o fato de que não “enxergar” a cor (e/ou demais fenótipos) das pessoas em uma sociedade racialmente desigual é manter e reforçar o sistema racista. Um sistema que se utiliza (e muito bem!) do apagamento e silenciamento de suas contradições e formas de opressão. Opressões que de “daltônicas” não tem nada!


O sistema racista opera enxergando com extrema nitidez quem são os grupos alvo de suas vantagens e de suas desvantagens. Não há nenhum embaçamento quanto a isso.


Por isso, de cá, na ponta da linha, em nível individual, tentar viver como se nada disso existisse é um desserviço e um posicionamento absolutamente reforçador da estrutura racista, já que o “color blind” trata-se de um mecanismo que permite a manutenção de privilégios sem alarde; sem nomear quem histórica e cotidianamente está sendo expropriado e quem está sendo beneficiade pelo racismo.


Por isso e muito mais (esse tema é extenso e merece ser bastante investigado) minha proposta é: vamos nos ver!


Vamos nos enxergar! Vamos assumir nossas diferenças e nos responsabilizar pelas desigualdades e seus efeitos.


Reconheçamos e validemos nossa humanidade que se apresenta de várias formas, sendo uma delas, na dimensão do corpo. E esse, em sociedades racistas como a nossa, enseja leituras e tratamentos muito específicos para negras(os) e não-negras(os)...


Jamais nos esqueçamos: quanto mais diversos forem os espaços pelos quais transitamos na vida pessoal e profissional melhor para todo mundo. Os “ganhos” são gerais. Então, por mais diversidade, mais humanização e respeito nos espaços e menos exclusão, discriminações e reprodução (ainda que irrefletida) de lógicas racistas.


Você vem junto?


SILVIA SILVA

Psicóloga, Pesquisadora das relações raciais e Facilitadora em CNV.

@silviasilvapsicóloga

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